06.12.2017 // Acessibilidade

Como falar sobre as pessoas com deficiência - Parte I

Texto extraído do livro "Diversidade - Mídia e Deficiência" publicado pela ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) e pela Fundação Banco do Brasil.

TERMINOLOGIA SOBRE DEFICIÊNCIA NA ERA DA INCLUSÃO

Romeu Kazumi Sassaki

1. Adolescente normal

Desejando referir-se a um adolescente (uma criança ou um adulto) que não possua uma deficiência, muitas pessoas usam as expressões adolescente normal, criança normal e adulto normal. Isto acontecia muito no passado, quando a desinformação e o preconceito a respeito de pessoas com deficiência eram de tamanha magnitude que a sociedade acreditava na normalidade das pessoas sem deficiência. Esta crença fundamentava-se na idéia de que era anormal a pessoa que tivesse uma deficiência. A normalidade, em relação a pessoas, é um conceito questionável e ultrapassado.

TERMO CORRETO: adolescente (criança, adulto) sem deficiência ou, ainda, adolescente (criança, adulto) não-deficiente.

2. Aleijado; defeituoso; incapacitado; inválido

Estes termos eram utilizados com freqüência até a década de 80. A partir de 1981, por influência do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, começa-se a escrever e falar pela primeira vez a expressão pessoa deficiente. O acréscimo da palavra pessoa, passando o vocábulo deficiente para a função de adjetivo, foi uma grande novidade na época. No início, houve reações de surpresa e espanto diante da palavra pessoa: “Puxa, os deficientes são pessoas!?” Aos poucos, entrou em uso a expressão pessoa portadora de deficiência, freqüentemente reduzida para portadores de deficiência. Por volta da metade da década de 90, entrou em uso a expressão pessoas com deficiência, que permanece até os dias de hoje. Ver comentários ao item 47.

3. "Apesar de deficiente, ele é um ótimo aluno"

Na frase acima há um preconceito embutido: ‘A pessoa com deficiência não pode ser um ótimo aluno’.

FRASE CORRETA: "ele tem deficiência e é um ótimo aluno".

4. "Aquela criança não é inteligente"

Todas as pessoas são inteligentes, segundo a Teoria das Inteligências Múltiplas. Até o presente, foi comprovada a existência de oito tipos de inteligência (lógico-matemática, verbal-lingüística, interpessoal, intrapessoal, musical, naturalista, corporal-cinestésica e visual-espacial).

FRASE CORRETA: "aquela criança é menos desenvolvida na inteligência [por ex.] lógico-matemática"

5. Cadeira de rodas elétrica

Trata-se de uma cadeira de rodas equipada com um motor. TERMO CORRETO: cadeira de rodas motorizada.

6. Ceguinho

O diminutivo ceguinho denota que o cego não é tido como uma pessoa completa. A rigor, diferencia-se entre deficiência visual parcial (baixa visão ou visão subnormal) e cegueira (quando a deficiência visual é total).

TERMOS CORRETOS: cego; pessoa cega; pessoa com deficiência visual; deficiente visual.

7. Classe normal

TERMOS CORRETOS: classe comum; classe regular. No futuro, quando todas as escolas se tornarem inclusivas, bastará o uso da palavra classe sem adjetivá-la. Ver os itens 25 e 51.

8. Criança excepcional

TERMO CORRETO: criança com deficiência mental. Excepcionais foi o termo utilizado nas décadas de 50, 60 e 70 para designar pessoas deficientes mentais. Com o surgimento de estudos e práticas educacionais na área de altas habilidades ou talentos extraordinários nas décadas de 80 e 90, o termo excepcionais passou a referir-se a pessoas com inteligência lógica-matemática abaixo da média (pessoas com deficiência mental) e a pessoas com inteligências múltiplas acima da média (pessoas superdotadas ou com altas habilidades e gênios) quanto a pessoas com inteligência lógico-matemática abaixo da média (pessoas com deficiência mental) - daí surgindo, respectivamente, os termos excepcionais positivos e excepcionais negativos, raríssimo uso.

9. Defeituoso físico

Defeituoso, aleijado e inválido são palavras muito antigas e eram utilizadas com freqüência até o final da década de 70. O termo deficiente, quando usado como substantivo (por ex., o deficiente físico), está caindo em desuso.

TERMO CORRETO: pessoa com deficiência física

10. Deficiências físicas (como nome genérico englobando todos os tipos de deficiência).

TERMO CORRETO: deficiências (como nome genérico, sem especificar o tipo, mas referindo-se a todos os tipos). Alguns profissionais não-pertencentes ao campo da reabilitação acreditam que as deficiências físicas são divididas em motoras, visuais, auditivas e mentais. Para eles, deficientes físicos são todas as pessoas que têm deficiência de qualquer tipo.

11. Deficientes físicos (referindo-se a pessoas com qualquer tipo de deficiência).

TERMO CORRETO: pessoas com deficiência (sem especificar o tipo de deficiência). Ver comentário do item 10.

12. Deficiência mental leve, moderada, severa, profunda

TERMO CORRETO: deficiência mental (sem especificar nível de comprometimento). A nova classificação da deficiência mental, baseada no conceito publicado em 1992 pela Associação Americana de Deficiência Mental, considera a deficiência mental não mais como um traço absoluto da pessoa que a tem e sim como um atributo que interage com o seu meio ambiente físico e humano, que por sua vez deve adaptar-se às necessidades especiais dessa pessoa, provendo-lhe o apoio intermitente, limitado, extensivo ou permanente de que ela necessita para funcionar em 10 áreas de habilidades adaptativas: comunicação, autocuidado, habilidades sociais, vida familiar, uso comunitário, autonomia, saúde e segurança, funcionalidade acadêmica, lazer e trabalho.

13. Deficiente mental (referindo-se à pessoa com transtorno mental)

TERMOS CORRETOS: pessoa com doença mental, pessoa com transtorno mental, paciente psiquiátrico

14. Doente mental (referindo-se à pessoa com déficit intelectual)

TERMOS CORRETOS: pessoa com deficiência mental, pessoa deficiente mental. O termo deficiente, quando usado como substantivo (por ex.: o deficiente físico, o deficiente mental), tende a desaparecer, exceto em títulos de matérias jornalísticas.

15. "Ela é cega mas mora sozinha"

Na frase acima há um preconceito embutido: "Todo cego não é capaz de morar sozinho".

FRASE CORRETA: "ela é cega e mora sozinha"

16. "Ela é retardada mental mas é uma atleta excepcional"

Na frase acima há um preconceito embutido: "Toda pessoa com deficiência mental não tem capacidade para ser atleta".

FRASE CORRETA: "ela tem deficiência mental e se destaca como atleta"

17. "Ela é surda (ou cega) mas não é retardada mental"

A frase acima contém um preconceito: "Todo surdo ou cego tem retardo mental". Retardada mental, retardamento mental e retardo mental são termos do passado.

FRASE CORRETA: "ela é surda (ou cega) e não tem deficiência mental"

18. "Ela foi vítima de paralisia infantil"

A poliomielite já ocorreu nesta pessoa (por ex., "ela teve pólio"). Enquanto a pessoa estiver viva, ela tem seqüela de poliomielite. A palavra vítima provoca sentimento de piedade.

FRASE CORRETA: "ela teve [flexão no passado] paralisia infantil” e/ou “ela tem [flexão no presente] seqüela de paralisia infantil"

19. "Ela teve paralisia cerebral" (referindo-se a uma pessoa no presente)

A paralisa cerebral permanece com a pessoa por toda a vida.

FRASE CORRETA: "ela tem paralisia cerebral"

20. "Ele atravessou a fronteira da normalidade quando sofreu um acidente de carro e ficou deficiente"

A normalidade, em relação a pessoas, é um conceito questionável. A palavra sofrer coloca a pessoa em situação de vítima e, por isso, provoca sentimentos de piedade.

FRASE CORRETA: "ele teve um acidente de carro que o deixou com uma deficiência"

21. "Ela foi vítima da pólio" 

A palavra vítima provoca sentimento de piedade.

TERMOS CORRETOS: poliomielite; paralisia infantil e pólio.

FRASE CORRETA: "ela teve pólio"

22. "Ele é surdo-cego"

GRAFIA CORRETA: "ele é surdocego". Também podemos dizer ou escrever: "ele tem surdocegueira" Ver o item 55.

23. "Ele manca com bengala nas axilas"

FRASE CORRETA: "ele anda com muletas axilares". No contexto coloquial, é correto o uso do termo muletante para se referir a uma pessoa que anda apoiada em muletas.

24. "Ela sofre de paraplegia" (ou de paralisia cerebral ou de sequela de poliomielite) A palavra sofrer coloca a pessoa em situação de vítima e, por isso, provoca sentimentos de piedade.

FRASE CORRETA: "ela tem paraplegia" (ou paralisia cerebral ou sequela de poliomielite)

25. Escola normal

No futuro, quando todas as escolas se tornarem inclusivas, bastará o uso da palavra escola sem adjetivá-la.

TERMOS CORRETOS: escola comum; escola regular. Ver o item 7 e 51.

26. "Esta família carrega a cruz de ter um filho deficiente"

Nesta frase há um estigma embutido: "Filho deficiente é um peso morto para a família".

FRASE CORRETA: "esta família tem um filho com deficiência"

27. "Infelizmente, meu primeiro filho é deficiente; mas o segundo é normal"

A normalidade, em relação a pessoas, é um conceito questionável, ultrapassado. E a palavra infelizmente reflete o que a mãe pensa da deficiência do primeiro filho: "uma coisa ruim".

FRASE CORRETA: "tenho dois filhos: o primeiro tem deficiência e o segundo não tem"

28. Intérprete do LIBRAS

TERMO CORRETO: intérprete da Libras (ou de Libras).

GRAFIA CORRETA: Libras. Libras é sigla de Língua de Sinais Brasileira. “Libras é um termo consagrado pela comunidade surda brasileira, e com o qual ela se identifica. Ele é consagrado pela tradição e é extremamente querido por ela. A manutenção deste termo indica nosso profundo respeito para com as tradições deste povo a quem desejamos ajudar e promover, tanto por razões humanitárias quanto de consciência social e cidadania. Entretanto, no índice lingüístico internacional os idiomas naturais de todos os povos do planeta recebem uma sigla de três letras como, por exemplo, ASL (American Sign Language). Então será necessário chegar a uma outra sigla. Tal preocupação ainda não parece ter chegado na esfera do Brasil”, segundo CAPOVILLA (comunicação pessoal).

Romeu Kazumi Sassaki: Consultor de inclusão social. E-mail: romeukf@uol.com.br. Autor do livro Inclusão: Construindo uma Sociedade para Todos (3.ed., Rio de Janeiro: Editora WVA ,1999) e do livro Inclusão no Lazer e Turismo: Em Busca da Qualidade de Vida (São Paulo: Áurea, 2003). Co-autor do livro Trabalho e Deficiência Mental: Perspectivas Atuais (Brasília: Apae-DF, 2003) e do livro Inclusão dá Trabalho (Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000) 

 

 

 

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